O post de hoje, é algo diferente, inédito para o blog. Mas não implicará no seu andamento normal, aliás, achei muito louvável a idéia das pessoas quererem deixar a sua história com a Pimentinha, deixe você também a sua história! Espero que gostem!

Desculpem-me pelo arroubo de intimidade, afinal nem os conheço, leitores desse blog incrível, mas onde mais eu poderia contar uma estória sobre Elis Regina a não ser em um santuário criado pra ela, espaço onde se pode ter a certeza (e eu a tenho) de quem muitos a amam de fato.
Num certo dia do ano de 1982, eu nos meus ingênuos 5 anos de idade, me lembro de receber a notícia da morte de Elis, e o que se seguiu então foi muito confuso, os adultos sem se preocuparem se nós crianças "perceberíamos" a dimensão do ocorrido, uma confusão de fatos, um farfalhar de comentários, um disse-me-disse: foram as drogas... não foram as drogas...
E eu, que até então tinha Elis na minha trilha sonora doméstica, fui relegado a ouvinte dessa tragédia, e uma enorme agonia me tomou naquele dia, de modo que, mesmo sem me lembrar com nitidez de sentidos dos fatos de então, o que ficou em minha memória afetiva foi uma angústia de Quintana, e por muito tempo eu não a entendi com clareza, pensando ser apenas mais uma de minhas tristezas infanto-familiares.
O tempo passou e meu gosto musical, jóia lapidada por meus pais e o que eles ouviam, se tornou 1 brilhante de muitas facetas: Caetano, Chico, Gal, Bethânia, Ângela, Dolores, Tom, Vinícius, Billi, Ella, Amália, Caubi, Agostinho, Simone, Dalva, Stones, Beatles e muitos outros, que os herdei como legado de família ou que adquiri por mérito de sensibilidade. Passei minha adolescência toda ouvindo a esses, entrei na fase adulta e sob fidelidade canina eles não me abandoram... Mas Elis não... eu a recusava...não sabia pq mas era assim...
Talvez por não querer me remeter àquele dia de 1982... Talvez por ter passado muitos anos sem entender direito o q teria sido aquele sentimento... e hoje quando me vem essa angústia, mesmo com pouquíssima frequëncia e associada a outros fatos da vida, percebo q ela nasceu nesse dia... Ela nasceu no dia em que Elis morreu... Ela nasceu da falta de terem me perguntado: "Você está triste Cleiton?" ou "Você gosta da Elis?" - poruqe hoje eu entendo que já a amava!
E só consegui entender isso quando, por voilta dos 25 ou 26 anos (hoje tenho 28), fiz as pases com Elis... Passei a ouví-la novamente... E o que se deu apartir daí foi o êxtase da reaproximação, como 2 amigos que, separados por indulgente mágoa, passam a se amar com mais força depois das diferenças superadas...
Hoje tenho por Elis a admiração q não devoto a nenhum outro artista! Sua alma fere a minha alma e gosto de sentir isso... sua voz me toca como um grito de mãe, amoroso e histérico... as suas intepretações dizem o que os próprios autores não conseguiam dizer, então sabiam que ela o faria... e a artista cuja morte havia me causado uma consternação infantil mas não menor, joga hoje sobre mim o aconchegante, pesado e maravilhoso fardo de seus sentimentos! E eu os absorvo com a ânsia e o deleite da mãe que tardiamente toma em seus braços o filho desgarrado, e até mesmo as agruras desse filho, sua dor "assim pungente", provocam êxtase a essa mãe....
Não mais posso viver sem Elis! Não posso me separar de tudo o que ela reparte em suas canções! Quero meu quinhão de toda essa pujança de emoções!
Me perdoem por esse desabafo egoísta, sei que também a amam, e cada um desses amores é, por sí só, icomensuravelmente maior que o dos outros, sem que se posssa compará-los. E eu cá, no interior das Minas Gerais, sem ter com quem dividir esse amor, pois a realidade musical das pessoas é bastante diferente da que trago comigo... O que eu queria mesmo, que era dividir esse fato com alguém, e, vocês involuntariamente estão me proporcionando esse momento, portanto sou-lhes grato, muito grato.
Fiquem em paz....
Texto: Cleiton Fernandes
E-mail para contato: cleitonfer88@yahoo.com.br
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